Na companhia dos programas da tarde que vão passando na pequena televisão pousada no topo de um dos armários da mercearia, Lurdes Ferreira recorre ao bloco de notas para fazer as contas do dia a dia. O telefone branco pendurado na parede vai tocando ao longo da tarde com recados dos fregueses e dos fornecedores. Os dias na mercearia vão-se passando sem grande agitação, mas Lurdes confessa que os seus 81 anos já começam a dificultar a tarefa de gerir o estabelecimento. Ainda assim, Lurdes vai ficando e ficando.
Em 2020, a proprietária da mercearia começou a questionar se já estaria na altura de encerrar este capítulo da sua vida. Mas, apesar de Lurdes sentir que já tinha chegado o momento de descansar ao lado do marido, de 83 anos, a decisão de encerrar aquela que foi a sua casa durante tantos anos tardou em chegar. Custa-lhe deixar o convívio que os dias de verão promovem junto à porta da mercearia, ou os raios de sol que logo de manhã aquecem o balcão onde Lurdes passa o seu tempo. “Sei que depois vou sentir saudades de tudo, porque foram muitos anos nesta loja”, confessa a proprietária. “Menos dos dias de chuva e de frio, em que temos de ir às compras”, acrescenta.

Lurdes Ferreira e o marido, Francisco Ferreira ainda rumam todas as semanas em direção ao mercado abastecedor, na Castanheira, para ir buscar os produtos em falta na loja. Apesar da idade, o casal faz as compras e carrega as caixas de fruta e legumes sem recorrer a outras pessoas. “Às vezes o meu neto oferece-se para ajudar, mas eu não quero, nós já estamos tão habituados um ao outro, ele já sabe onde é que eu compro as coisas, onde é que ele tem de as ir buscar, e lá andamos os dois, felizmente tem corrido bem”, conta Lurdes.
“Ainda me lembro bem do meu primeiro dia aqui”
Ainda que por vezes o mau tempo dificulte a tarefa, Lurdes admite que gostou do trabalho desde o primeiro dia em que veio ajudar a sogra, antiga proprietária do espaço. Bem presentes na memória ainda estão as recordações do primeiro dia em que ficou responsável pelo estabelecimento. “Vim para aqui no dia 28 de fevereiro de 1973, dia em que fazia 33 anos, e gostei muito do trabalho”, assegura a proprietária da loja há 48 anos.
Quando assumiu a gerência da loja, o espaço “era uma coisa mal enrascada”, descreve Lurdes, por isso, a proprietária investiu na colocação de azulejos, no arranjo do teto, na organização das prateleiras, tudo para que a loja ficasse mais “à sua maneira”. Passado quase meio século, o estabelecimento já passou por muitas transformações. O espaço já foi maior e a diversidade de produtos também, conta a proprietária, “agora a loja é mais pequena, mas antigamente vendia muita loiça, vendia roupa, roupa interior de senhora e de homem, e vendia muitas outras coisas”.

Hoje ainda é possível encontrar vestígios desses tempos, nas recordações que Lurdes Ferreira vai mantendo nas prateleiras por detrás do balcão. Os bonecos de porcelana e as molduras onde estão guardadas as mais diversas memórias demonstram que Lurdes sempre tratou esta loja como se fosse a sua casa, colocando um pedaço de si em cada canto da mercearia.
A mercearia instalada no meio da Vila Alta de Alenquer lembra um tempo em que se conhecia todos aqueles que entravam pelas portas dos estabelecimentos. Lurdes sabe bem quem frequenta a sua loja, até porque são cada vez menos as caras novas que vão aparecendo por aqui. “As pessoas mais novas preferem as grandes superfícies, gostam de ver muita coisa, só aqueles que já são mais idosos é que já não têm possibilidade para se meterem num carro para ir ao supermercado e, por isso, vão se desenrascando aqui”, conta Lurdes.
A prova do apreço dos clientes por este espaço, que é o único do género na Vila Alta, é a quantidade de vezes que Lurdes já ouviu a pergunta: “porque não arranja um outro sítio para fazer a mercearia?” Mas Lurdes recusa sempre a hipótese de mudar a sua mercearia. “Só gosto deste sítio, foi aqui que eu comecei”, desabafa Lurdes, “quando sair daqui é para ir para casa, vou finalmente descansar, 48 anos é uma vida, só é pena que os anos tenham passado tão rápido”.
Esta segunda-feira, Lurdes Ferreira abriu as portas da única mercearia da Vila Alta pela última vez.
