Travessia arriscada na EN1 preocupa moradores de Ota

Na Estrada Nacional 1 (EN1), ao quilómetro 43,8, na zona das Arroteias, em Ota, atravessar a estrada para apanhar um autocarro tornou-se uma rotina marcada pelo medo. Moradores reclamam, mas continuam sem solução ou resposta.

Sem passadeiras, sem sinalização adequada e com veículos a circular frequentemente em excesso de velocidade, dezenas de moradores enfrentam diariamente uma travessia perigosa, situação que, apesar de sucessivas denúncias, continua sem solução. Manuel Pavão é um desses moradores. Vive a cerca de 150 metros da paragem de autocarro, mas o percurso está longe de ser simples. Em declarações à Voz de Alenquer, o morador explicou como esta situação impacta o seu quotidiano: “Tenho que ir pela berma, onde às vezes só tenho 20 centímetros de espaço, por causa de uma vala”. A dificuldade agrava-se com a condição de saúde de que Manuel padece, uma vez que é cego de uma vista, com apenas cerca de 20% de visão na outra, devido a um glaucoma. “Uso muito a audição para perceber se vêm carros. Há dias em que vejo um pouco melhor, outros pior”, contou à Voz de Alenquer. Ainda assim, atravessar a estrada continua a ser um momento de grande tensão: “Fico ali, às vezes cinco minutos, à espera, até me sentir seguro. Os carros elétricos não fazem barulho e os outros vêm em excesso de velocidade, o que complica a situação”.

A zona onde se encontra a paragem de autocarro é particularmente perigosa, tratando-se de uma curva com pouca visibilidade, onde circulam frequentemente veículos pesados associados às fábricas da região. De acordo com o próprio, é comum os condutores ignorarem os limites de velocidade e realizarem ultrapassagens naquele troço. O risco é real e constante. “Corro risco de vida cada vez que atravesso. Se um dia for atropelado, ninguém vai conseguir dizer que não sabia da situação”, alertou Manuel Pavão.


Espero que não seja preciso acontecer uma tragédia para que alguém faça alguma coisa

Manuel Pavão

Problema afeta toda a comunidade

Contudo, a situação não é isolada. De acordo com o presidente da Junta de Freguesia de Ota, André Texugo, pelo menos 50 pessoas são afetadas diariamente pela falta de condições de travessia naquele ponto da Estrada Nacional 1. “O núcleo das Arroteias está praticamente isolado. Não existe mobilidade pedonal segura até à paragem de autocarro”, explicou André Texugo, em declarações exclusivas à Voz de Alenquer.

“A única alternativa para muitos residentes é arriscar atravessar a estrada ou percorrer caminhos mais longos e pouco acessíveis, como pelos Paços”, acrescentou. O autarca sublinhou ainda que o problema não é recente: “Vivo em Ota há 36 anos e já vi colegas perderem a vida naquela curva”. A zona é conhecida pelo historial de acidentes e pelo desrespeito recorrente dos limites de velocidade.

Apesar de algumas soluções pontuais, como o transporte escolar assegurado pela Junta de Freguesia de Ota, a população adulta continua sem resposta. “Quem não tem viatura própria está completamente condicionado”, afirmou André Texugo.

Soluções não acompanham reclamações

Perante o risco evidente, várias tentativas foram conduzidas para resolver a situação. Manuel Pavão apresentou uma reclamação formal à Infraestruturas de Portugal (IP) a 10 de julho de 2025. No dia seguinte, recebeu indicação de que o caso seria analisado. No entanto, meses depois, o processo foi encerrado administrativamente, sem qualquer intervenção no local. Desde então, os contactos multiplicaram-se.

O morador enviou comunicações para a Câmara Municipal de Alenquer, a Junta de Freguesia de Ota, a GNR do Carregado, a Brigada de Trânsito e para a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR). Num dos emails enviados em janeiro de 2026, Manuel Pavão expressou a sua indignação: “Todos os meses entro em contacto e a resposta é que está a ser analisado. Pergunto: por quanto tempo mais? Cada vez que tenho de atravessar a estrada, corro risco de vida”. Também a Junta de Freguesia tem insistido junto das entidades competentes. Através de um email, o executivo alertou para a “grave insegurança rodoviária pedonal” naquele troço da EN1, sublinhando a ausência total de infraestruturas básicas, como passadeiras, sinalização horizontal, iluminação ou dispositivos de abrandamento de tráfego. “Trata-se de uma situação de risco real para a integridade física dos utilizadores da via”, lê-se nos documentos aos quais a Voz de Alenquer teve acesso, que solicita medidas urgentes e uma reunião no local entre as várias entidades. 

Apesar disso, a resposta tem sido limitada. A Infraestruturas de Portugal confirmou apenas o registo da reclamação e o seu encaminhamento interno para análise. Já a ANSR indicou que a exposição seria avaliada, mas sem garantir qualquer intervenção concreta, admitindo que não compete a esta entidade resolver este tipo de problemas.

Segundo André Texugo, o principal entrave à resolução do problema está na falta de intervenção direta da entidade responsável pela via. “Qualquer solução passa pelas Infraestruturas de Portugal. Nem a Junta de Freguesia de Ota nem a Câmara Municipal de Alenquer podem intervir na estrada”, explicou. O autarca confirmou que houve contactos e trocas de informação entre entidades, mas sem desfecho prático: “A Câmara está a par, nós estamos a par, mas o processo ficou parado. Falta ação.”

A Voz de Alenquer tentou contactar as Infraestruturas de Portugal, não obtendo resposta até à data do fecho desta edição. 

Soluções identificadas, risco mantido

As soluções apontadas são claras: instalação de uma passadeira com sinalização luminosa, redução do limite de velocidade para 70 km/h, colocação de bandas sonoras e criação de proteção nas bermas. Para Manuel Pavão, estas medidas são essenciais: “Só assim conseguimos atravessar com segurança”.

Até lá, a realidade mantém-se inalterada. Todos os dias, dezenas de pessoas continuam a enfrentar a Nacional 1 sem condições mínimas de segurança. Para quem vive na Rua das Arroteias, atravessar a estrada tornou-se um risco assumido perante a ausência de respostas. “Estou desesperado”, admitiu Manuel, que deixou um aviso que resume o sentimento de toda a comunidade: “Espero que não seja preciso acontecer uma tragédia para que alguém faça alguma coisa”.

Scroll to Top