Fátima Veiga trabalha desde os 13 anos, mas foi aos 21, que descobriu aquela que seria a sua vocação: a condução. Apesar da tenra idade, Fátima começou desde cedo a fazer viagens internacionais ao volante de um camião. Estávamos nos anos 90 e o país estava a passar por uma profunda mudança socioeconómica. Durante essa década, a percentagem de mulheres empregadas aumentou 25 por cento. Contudo, parte dos empregos estavam ainda reservados, sobretudo, para os homens.
Fátima Veiga sabia que a sua profissão não era vista como “normal”, mas isso não a impediu de seguir a carreira de motorista de pesados numa altura em que eram poucas as mulheres que se aventuravam a viver atrás de um volante. “Não foi fácil, no início duvidavam muito das mulheres”, revela Fátima, que já conta com 26 anos de carreira.
Depois de passar também pela condução de autocarros, aos 45 anos, a vida de Fátima Veiga voltou a dar uma reviravolta. O companheiro, taxista de profissão, comprou um segundo carro para que Fátima o pudesse acompanhar, pois o trabalho estava a tornar-se demasiado para uma só pessoa. Dois anos se passaram desde que Fátima disse que sim a esta aventura e hoje é difícil passear pelas ruas de Alenquer sem encontrar o icónico “Táxi da Fatinha” a circular pela vila. “Ainda hoje as pessoas fazem comentários por ser mulher, a maioria deles agradáveis”, aponta a taxista. Apesar dos olhares de estranheza, Fátima nunca se imaginou num emprego mais convencional. Gosta de estar ao comando destes veículos, de ter “profissões normalmente associadas mais aos homens”, explica. Na vida de taxista agrada-lhe as oportunidades que tem para falar com os clientes: “Gosto de lidar com o público, de conversar, de ajudar e dar atenção às pessoas que viajam comigo”.
Cláudia Costa nunca viu nada de estranho nas profissões da mãe, mas não conseguia evitar reparar na surpresa que os outros demonstravam quando explicava que Fátima era motorista. “Na escola quando dizia que os meus pais eram os dois motoristas toda a gente me perguntava se eu não me tinha enganado a preencher a parte da minha mãe. A minha mãe adora conduzir, é a vida dela, mas toda a gente achava estranho uma mulher fazer o que ela faz”.
A filha de Fátima Veiga sempre lidou bem com o preconceito. Hoje descreve-se como uma “feminista” em grande parte pelo exemplo da mãe: “Fez-me ver que nada é impossível, que posso fazer qualquer coisa e que não estou limitada por ser mulher. A minha mãe deu-me esse grande exemplo e acho que havia muita gente que a desacreditava e desvalorizava e que acabava por lhe dar mérito”.
Dos muitos anos na estrada, Fátima recorda com mais carinho os dias que passava ao volante do autocarro. “As profissões que eu tenho tido têm me dado muitas coisas boas, momentos que me fazem sentir orgulhosa, porque me empenho e dou o meu melhor. Fiz grandes amizades que vieram dos tempos em que conduzia o autocarro, com pessoas que circulavam comigo todos os dias. Ainda hoje, os meninos que vi crescer, e que hoje já são casados e já têm filhos, chegam ao pé de mim e continuam a tratar-me com muito carinho, como tia Fatinha, como sempre me conheceram, e isso é muito valioso, porque é bom podermos trabalhar e podermos sentir que somos realizados ao nível profissional.”
O malabarismo entre ser mãe e uma boa profissional
O dia a dia de Fátima é sempre marcado pela imprevisibilidade. A par dos trabalhos que são certos e com hora marcada, o telemóvel pode ligar a qualquer momento com um novo serviço. “Há dias em que fazemos muita coisa e outros em que podemos não fazer grande coisa”, descreve Fátima, “ às vezes pensamos que nos vamos levantar tarde, ou melhor por volta das 6/7 da manhã, mas, por vezes, temos de nos levantar às 4. Outras vezes achamos que vamos largar o táxi às 19h, mas, na verdade, largamos às 22h”, sublinha.
Os três filhos de Fátima cedo se habituaram aos horários pouco convencionais da mãe, que passava longas horas na estrada. “É normal que falhasse em certas coisas, como festas da escola, mas sempre conseguiu estar presente. Sozinha, com 3 filhos, é complicado estar presente em todas as fases, mas acho que ela, sem dúvida alguma, nos transmitiu grandes valores de vida. Ela ensinou-nos que é com trabalho e força de vontade que tudo se consegue, que temos de enfrentar a vida com um sorriso na cara e acreditar que conseguimos fazer tudo”, conta Cláudia Costa notavelmente orgulhosa pelo percurso de vida da mãe. Fátima agradece a compreensão dos filhos e reserva cada folga para passar tempo com eles. “Sabem que eu trabalho muito, mas vivemos muito uns para os outros. Tento ser o mais presente possível e aos domingos ou aos sábados à noite temos sempre um jantar para conversar para estarmos juntos e para podermos debater as coisas boas e menos boas. Eles são muito atinados, sempre me ajudaram imenso”, conta Fátima.
