A notícia de encerramento chegou no final de junho. Manuel, que cresceu em Alenquer, e outras 14 crianças dependentes da valência socioeducativa da CERCI Azambuja ficaram sem alternativas. Na base da decisão está uma portaria criada em 1997, que define o financiamento atribuído por criança. Desde então, nada mudou. O valor tem-se mantido longo dos últimos 28 anos, e a componente pedagógica nunca foi atualizada, deixando a instituição a lutar para garantir um serviço que a lei já não acompanha. “A valência socioeducativa da CERCI ia fechar, porque o Ministério da Educação não está a cumprir com os objetivos que devia. Tanto a parte pedagógica como a parte educativa, nada foi mudado”, salientou Fernanda Correia, mãe de Manuel.
Os pais receberam a notícia de forma inesperada e com poucas explicações: “A comunicação foi fraca. Só nos disseram que os nossos filhos davam prejuízo, mas não nos contextualizaram a questão como deve de ser. Possivelmente, aquela valência teria mesmo de fechar e nós tínhamos que entregar os nossos filhos a uma escola regular”, continuou.
Para as famílias que procuram soluções em Alenquer, o ensino regular não é uma opção. A mãe de Manuel, Fernanda Correia, relata a visita à escola do 2.º ciclo, onde seriam acolhidas algumas destas crianças: “É uma escola que não tem uma casa de banho adaptada e tem poucos técnicos. E é também o contexto escolar, que não é adequado para a patologia que o meu filho tem. Enquanto a CERCI dispõe de diversas terapias essenciais para o Manuel, aqui não há nada”.
Manuel tem 14 anos, vive em Alenquer e é uma das crianças que frequenta a CERCI. Sofre de Síndrome do Grito do Gato [Cri-Du-Chat], atraso psicomotor e outras condições associadas. Desde que entrou na instituição, há dois anos, a evolução foi visível, mas insuficiente: “Em cada sala estão cinco crianças com patologias das mais graves que vocês podem imaginar. E uma professora com cinco crianças, em que o grau de deficiência é diferente para cada um, é muito pouco”, acrescentou Fernanda.
Ainda assim, num cenário onde as opções para crianças com necessidades especiais são escassas e insuficientes, a valência socioeducativa da CERCI de Azambuja tem sido um pilar essencial para muitas famílias: “Esta relação da CERCI connosco é muito importante. A missão deles é estar ao lado das famílias com crianças e jovens com necessidades especiais, portanto estão vocacionados só para aquele tema, enquanto que as nossas escolas não”.
O caso da CERCI de Azambuja é apenas um entre muitos espalhados pelo país. A falta de investimento público e de apoio contínuo a instituições deste género tem colocado em causa a sua sustentabilidade: “Este problema não é só da CERCI de Azambuja. É transversal a todas as CERCIs do país que têm esta valência”, sublinhou a mãe de Manuel, que acrescentou que em Alenquer o panorama é ainda mais preocupante: “o concelho de Alenquer é um dos que tem mais crianças e jovens com deficiência. E não tem qualquer resposta. Zero”.
Embora sediada em Azambuja, a CERCI acolhe maioritariamente crianças de concelhos vizinhos, onde não existe qualquer valência semelhante. O futuro destas crianças é incerto, o que deixa os pais preocupados: “Estou com muito receio, porque não sei como é que vai ser a adaptação dele”, confessou Fernanda Correia. Ainda assim, recusam-se a desistir e continuam à procura de soluções que possam garantir um futuro mais cómodo aos filhos.



